"El Gancho" - por Liliana Rago (ARG)

O tango é mesmo uma  abstração de dança e música, e o par que está dançando com o fervor de um transe religioso, não se olha, não troca duas palavras, nesse ritual de con-fissão ritmado.

Eles são acionados pela música como o vento fustiga a natureza provocando mudanças transitórias, porque no fim as formas se reintegram nas atávicas linhas perduráveis: Luiz e Maria, amigos, namo-rados, ou parceiros apenas de uma noite.

Essa simbiose explica um intrigante momento da história dessa dança: a ronda noturnal daqueles homens e seus cravos de sangue latejando, chambergos que mudavam de postura com um gesto veloz das longas mãos, toda vez eu um requebro era inventado.

O tango ainda “malevo” não feria a masculinidade dos raçudos rapazes que dançavam nas esquinas, à luz do alto poste, das estrelas que ponteavam o ritmo titilando, do sorriso amarelo do boteco, e ao vi-brante compasso das seis cordas e das palavras mudas que chorava o louco bandoneón enluarado.

Toca tangó!  Saltoneando, taconeando, tangoneando, gardeleando!

Carlos Hugo Christensen – cineasta argentino

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