DECEPÇÃO NA MILONGA - DEPOIMENTOS FEMININOS

Já está ficando difícil as mulheres maduras saírem para dançar sem levar seu parceiro ou contratar um, deixando assim outras damas em situação difícil, relegadas a olhar, comer, beber e conversar com as colegas de mesa, ao invés da finalidade principal de ir a um baile, que é dançar com vários cavalheiros e sair cansada e feliz!

Mas o que anda acontecendo de verdade nas milongas?

De início, a falta de sensibilidade de grande parte dos organizadores, que não recepcionam as damas, embora cubram de deferências eventual estrangeira que apareça na milonga. Organizadores: as estrangeiras aparecem e bailam não só com vocês como também com os outros - claro, efeito-novidade - porém, elas se vão e nós continuamos aí. Não reconhecem que suas milongas são pagas pelos alunos, em sua grande maioria mulheres, e que elas são suas principais mantenedoras e divulgadoras? Portanto, caso realmente prezem isso, que tal recepcionar sua aluna, não importa em que estágio se encontre, ocasionalmente levando-a à pista para uma tanda, permitindo que ela aprecie a milonga, exibindo-a para eventuais desconhecidos e encorajando-a a voltar mais vezes?   Contudo, na prática, o que se vê?  Grande quantidade de damas sentadas, enquanto esses profissionais divertem-se entre si em flagrante exibicionismo, numa atitude de total desrespeito para com o público feminino, que é quem sustenta suas aulas e bailes.

Outro fator que desestimula as damas é a falta de qualidade dos cavalheiros. Enquanto a maioria das damas investe em aulas, se reciclando sempre, aqueles estagnaram, e não acompanham as inovações e todo o prazer que bailar bem um tango oferece, fortalecendo a opção pelos contratados, na maioria bolsistas. Dançarinos contratados atualmente custam a uma dama, na ponta do lápis, por baixo, 150 reais entre "aluguel", ingresso e consumo, isso sem falar no transporte, opcional. Dividir isso com outras colegas ameniza um pouco, mas não é justo para quem não tem a mesma disponibilidade financeira, considerando que existem várias milongas por semana.

Também ocorre, algumas vezes, que o DJ "esquece" de cuidar de sua trilha sonora, repetindo tandas e lançando novidades nem sempre próprias para uma milonga. Além das comemorações (aniversários, em sua maioria), distribuição de prêmios, anúncios de eventos, repentinas inserções de cantores ou músicos interrompendo o baile sem terem sido anunciados.

Entre ir ao baile para esquentar cadeira e sair com as amigas para um barzinho, cinema ou teatro, elas estão preferindo ir aos últimos, já que o que recebem em troca do que pagam é plenamente satisfatório, além de culturalmente nutritivo... É o que anda acontecendo com várias das antigas frequentadoras dos bailes, com as quais eventualmente nos encontramos, que desistiram de ir às milongas justamente porque não tinham com quem dançar...

Muito já se falou e temos exemplos em outros estados, de milongas que têm seu próprio quadro de "personal dancers". Já se chegou a utilizar esse esquema no Rio, porém não foi adiante talvez por não gerar lucro - ou seria ganância de ambas as partes?

Acreditamos que, se não se consegue empatar ganhos e perdas (mais perdas, na realidade), os patrocinadores das milongas deveriam fazer uma análise honesta dos motivos que causam a retração do público feminino - e mudar de atitude - caso contrário, do jeito que está, é mais prudente não manter a milonga funcionando...