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Autora:
GRACIELA H. LÓPEZ
Tradução:
Raquel Mellman
Pensativo, com um uísque na mão, mas sem tomar um gole, dolorido, Miguel a segue com o olhar. Olha-a dançar.
Linda, muito mais sexy, muito mais mulher do que quando era sua.
Ela passa com outro diante de seu nariz. Dançam agarradinhos, o cara dança mal, apóia o calcanhar, não me convence, diz consigo mesmo.
Mas o que importa? Ela dança com os olhos brilhantes e essa expressão embevecida, que faz tantos anos não via.
Será que alguma vez ela fazia essa cara quando dançava comigo? Não creio – brigávamos, jogávamos a culpa um no outro se algum de nós errava um passo, lembra-se.
Miguel não tem vontade de se mexer, apesar de que, ao seu redor, várias mulheres olhavam-no, convidando-o a dançar com o olhar. Mexe o gelo em seu copo com o dedo. Lembra-se que ela nunca gostou desse gesto, achava-o porco, dizia.
A música pára e os casais se dirigem às mesas.
Esse imbecil não deve saber que essa linda morena foi minha mulher, senão não passaria tão calmamente enlaçando-a pela cintura, o babaca.
Não pode desabafar com ninguém. Todos são muito bons, mas nenhum é seu amigo. Não há amigos na milonga. Assim é melhor, que ninguém saiba que não pode deixar de sofrer. Ninguém sabe nada e lhe parece que esse segredo o ajuda a dissimular tanta angústia. É certo isso que está vivendo? Parece um pesadelo.
Olha-a de longe, ela volta a dançar com o mesmo cara. É, agora não tem mais dúvidas, ela anda com esse imbecil que não chega aos seus calcanhares.
A ele, que foi seu marido, o pai de seus filhos. A ele, que trabalhou e se descadeirou por tantos anos, que pensou que o casamento era para sempre.
Mesmo ninguém sabendo, parece que todos olham para ele. Torna a reparar nas mulheres que querem dançar com ele, que jogam aquele olhar interrogativo, como que dizendo: – por que hoje não? E ele não pode nem ficar de pé, com medo de que sua emoção o traia.
Maldiz mil vezes o dia em que resolveram aprender a dançar tango.
Sente vontade de buscá-la, naquele canto do salão, e arrastá-la pela orelha para casa. Mas que casa? Já não há mais casa, nem vida em comum, nem Natais, nem férias juntos.
Sabe que já vão fazer três anos que aquilo tudo aconteceu. Mas não consegue se conformar, não suporta vê-la assim, exuberante e atrativa, com essa roupa que ele jamais a havia deixado usar.
Uma louca, é isso, tornou-se uma louca qualquer, imagine se seus filhos a vissem.
Por outro lado, está muito mais linda, Miguel aceita essa idéia a contragosto, como se discutisse consigo mesmo. Por que não se vestia assim antes? Por que quando estávamos casados era uma gorducha desajeitada?
De repente, o olhar dela o enfoca, penetra, captura-o numa espécie insinuação especial. Sente esses olhos queimarem seu rosto. Olha-a, ela sorri apenas e com um gesto simpático, à distância, lhe pergunta: bailas?
Ele sai disparado até ela, como um robô, sem pensar, como que obedecendo a alguma coisa.
Quando chega perto dela, vê aproximar-se outro homem ao mesmo tempo, atrás de si. Há um momento de confusão, de hesitação entre os três.
O outro se adianta para tomar a mulher – a sua mulher – em seus braços.
Então acontece o milagre - ela diz ao outro:
- Minha amiga quer dançar um tango contigo. Deixe que eu danço com ele, que veio lá do outro lado, troquemos.
A amiga (amiga de verdade, sem dúvida) levanta-se e se aproxima do cara, sorridente. Saem dançando.
Miguel toma em seus braços a sua ex-mulher, essa que agora o atrai e o tonteia com seu perfume, que ele tanto conhece. Esse perfume que tantas noites procura em seu travesseiro. Diz-lhe ao pé do ouvido:
- - Obrigada por salvar-me do vexame.
- - De nada. Você merece, diz ela com ternura.
Uma estranha cumplicidade, a um tempo doce e travessa, se instala entre os dois, enquanto dançam, um pouco abalados.
- - Antes, comigo, você não se vestia desse jeito, tão linda.
- - Você também não me olhava como agora, disse sua ex-mulher, agora deslumbrante.
Ele tem vontade de agarrá-la, seduzi-la, mas percebe que ela nunca mais será sua mulher, a rotineira, a que lava a sua roupa.
Sabe-o, sente-o em seu corpo, enquanto dançam. E talvez por isso mesmo, a deseje mais que nunca.
Ela sente essa diferença, torna a sentir-se olhada, com esse olhar que lhe incendeia a pele. Lembra-se da vida em comum, a cara indiferente, distraída de Miguel, os olhos brilhantes, mas para as outras.
Lembra-se de como a procurava, ao final das reuniões, das festas, como quem busca o casaco para ir embora. Ela sempre em desvantagem, sentindo-se desengonçada, sem graça. Até aquela vez.
Teve aquele dia em que disse chega! E esse dia foi definitivo. Sentiu que não voltaria atrás.
Será que não haveria outra maneira de se encontrarem?
Talvez possam ficar noivos. Que engraçado, pensa ele, estar noivo outra vez. Miguel pensa e sorri ao final de um tango. Despedem-se, calados, os olhares dizem tudo.
Ele, feliz como um garoto, interpreta sem dúvidas aquele olhar: “Até a semana que vem, meu amor, voltaremos a nos encontrar aqui”.
O salão de baile, acostumado aos devaneios humanos, será testemunha do desencontro, o berço da dor, mudo observador de tanto desalento, de tanta decepção.
Porque Miguel, esperançoso, acreditará que tudo vai se consertar, tudo voltará a ser como antes.
Mas ela sabe que o cristal do amor se espatifou. Voltar ao que era antes a assusta. Nunca mais o costume, o hábito, a rotina. Nunca mais o olhar indolente e distraído.
O salão de baile torna-se, num estalar de dedos, a lâmpada de Aladim, aquela que ao se esfregar, obtém-se um desejo.
Então ela se anima e pede: Aladim, por favor, não me deixes ceder à tentação de voltar a viver com ele. Amo-o demais...
Quero que sempre, mas sempre, cada vez que eu entre neste salão, ele me olhe desse jeito, com os olhos brilhantes de desejo. Quero que venha com a esperança de me encontrar, com o desejo e a loucura à flor da pele.
Aladim, atrevo-me a pedir - quero ser seu amor impossível!
Fonte: Revista
B.A. TANGO, dezembro 2000, com autorização para reprodução no Boletim Rio Tango.![]()